notas

Eu continuo achando que colocar notas explicativas e introdutórias em livros de quem quer que seja é chato e inútil. Se tem uma coisa que eu detestava naquelas edições escolares de Machado de Assis e José de Alencar eram as tais notinhas. Mas me preocupa mais a inutilidade que a chatice. Quer botar notinhas, bote, mas se isso não vier acompanhado de uma campanha intensa contra o racismo, uma discussão com professores e alunos sobre Obra Literária, Racismo e Auto Estima, por exemplo, não vai adiantar de nada. E eu sei do que estou falando, pode acreditar.

Eu sou viciada em enlatado americano desde que era assim que a gente chamava enlatado americano. Assistia Panteras, Hawai 5-0, Baretta, affe, tudo que você imaginar! Mas sempre assisti meio envergonhada de admitir e com plena consciência de que (achava eu ) era tudo pura tosquice ridícula. Vai que virou moda e agora vejo gente discutindo seriado como se fosse filme! Falando de teorias sobre o mundo real!!! Ãhnn? Onde foi que eu vim parar? Como era mesmo o nome daquele cara que dorme anos e quando acorda fica pensando “que mundo é esse?”.

Esse é meio meu problema com BBB e Troca de Família é exatamente o contrário. Por que eu vou assistir uma espetáculo com tudo que há de pior na realidade brasileira? Por que eu vou ficar vendo gente tosca real na tv quando é só isso que eu vejo todo dia  no mundo real? Será que as pessoas precisam disso pra se sentirem melhores? Pra pensar  eu não sou tão tosco assim?

Aí você vê gente que parecia bacana fazendo tosquice, sendo ogra e diz “nossa, ela escreve bem, eu gosto tanto dela, mas ela é tosca também” e isso faz de você o quê? uma escritora? Uma cantora? Não, você continua você, ela continua sendo tosca e escrevendo bem, mas agora você sabe “aquilo” sobre ela.

Aí eu vejo todo mundo discutindo a vida alheia, quem dormiu com o marido de quem, quem arruma a casa melhor, quem é melhor mãe e quem é feia (por dentro e por fora). E só penso nessa nossa imensa e coletiva carência afetiva, de expor vidas pessoais em público, de espiar a vida pessoal das pessoas que se expuseram e de ficar comentando isso e se sentindo superior.

Queria ressaltar que não me sinto mais inteligente ou superior por não gostar dessas coisas. Gosto de tosquice e de fofoca como todo mundo, mas (tá, me sinto mais evoluída um pouquinho) tô me achando por pelo menos reconhecer  isso.

Como eu sou mãe solteira e o pai dos meus filhos não se envolvia com o dia a dia deles nem quando éramos casados, não sou muito parâmetro nessa de dividir responsabilidade e culpa, ambas são só minhas desde sempre. Mas isso é circunstancial, eu acredito em repartir. Veja, repartir não é delegar. Tem gente que confunde divisão de tarefas com organização indígena (cacique e índio). “eu lavo prato e vc arruma a casa” “eu pego na escola e vc  leva no balé”.

Eu acho que a verdadeira inimiga da mulher é a culpa.

Eu acho que tenho que voltar a tudo isso depois, mas dá uma pregui…

 

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ciência para quem precisa de ciência

Como eu já disse, eu fui amamentada porque minha avó não acreditava em ciência. Quando eu era criança a moda era matar aula (aqui chamava “filar” aula) e ir ao museu do IML, que se chama Nina Rodrigues, ver as cabeças encolhidas de Lampião e Maria Bonita. Nina Rodrigues, vocês sabem, era cientista, discípulo de Lombroso. Eu aprendi a ler pelo método “Casinha Feliz”, moderno e científico, tinha Vavá, Vevé, Vivi, Vovó e Vovô. Tinha Uva também e o R era um Rato. O S acho que era uma cobra, ou melhor, SSSerpente. Não tenho certeza, eu adorava aquilo, mas já sabia ler, só fingia pra pró não ficar triste e pra ganhar elogios e presentes. Meu pai aos 40 estava com pressão e colesterol altos demais e o médico passou uma dieta que envolvia trocar manteiga por margarina, não comer ovo, feijoada, diminuir o sal e parar de tomar café. Meu compadre trouxe água de alevante e mandou tomar duas vezes na semana, um copinho só “pra não comprometer a sustança masculina”. No dia do exame de motorista meu pai tomou dois copinhos, “pressão 12 por 8, seu Cumprido” disse ele depois. Ah, Cumprido era meu compadre.

Aos 18 fui a um Iridologista.Saí encantada. Meu pai, cético, ateu e filho de médico, ainda lutava com o colesterol, que a água de alevante controlava mas não podia ficar sem que subia de novo. Foi resmungando. Saiu de boca aberta com o médico que disse até se ele teve cachumba, sarampo ou catapora. De noite ele ligou pra minha avó pra confirmar. Eu nem sei o que o médico passou pra ele. Envolvia aquela porcaria horrível da Espinheira que de Divina não tem nada (mentira, maldade, é Divina sim, mas o gosto é horrível mesmo) o médico tinha uma predileção por lavagens intestinais, espinheira divina e fome.

Não aguentei. Eu sou auto indulgente com comida. Acredito em comer. Manteiga, Café.Não acredito em ciência. Não mais do que acredito em astrologia, homeopatia, Tarô, Psicanálise, Reiki. Não gosto de antibiótico, me deixa com ressaca, mijando amarelo e quente. Gosto de própolis, mel, alho. Uma amiga me disse que cebola e alho dificultam a meditação, a relação com o divino. Eu experimentei e achei que pode ser. Talvez um dia desses eu tente uma dieta menos condimentada pra me conectar. Talvez. Eu gosto demais de condimentos.

Eu bebia. Nada de cerveja, só destilados e fermentados (cerveja é fermentado?) bem, vinho, champagne, sidra, sacou? não gosto de cerveja. Gosto de açucar. Gosto dos venenos, açúcar, sal e farinha. E o que a gente faz com tudo isso? Come ovo? Bebe café? e cerveja?E vinho? E óleo de soja?

Toma chá? Tem princípio ativo? mata? Amamenta o filho? Faz cesariana? Cordão enrolado é motivo pra parto cirúrgico? Parto na água pode causar infecção? Natação pra criança com menos de seis meses dá infecção no ouvido? Mel antes de um ano pode transmitir doença? Ferver Mel é bom? E o dr Rinaldo De Lamare ainda presta pra alguma coisa?

Dar coca cola pra bebê com diarreia é bom? foi o médico que mandou. E antibiótico pra dor de ouvido causada por água da piscina? E azeite quente no ouvido? Gente gorda tem DDA? Mulheres tem cérebro menor que o dos homens? Cérebro menor é melhor? O homem veio do macaco? Da serpente? Da lama? Quem descobriu o vírus do HIV foi o americano ou o francês? E quem inventou a AIDS foram os Belgas do Congo? Homens pensam mais em sexo que mulheres? Mulheres pensam mais mas não confessam nem sob tortura?

Eu hoje tive uma crise de rinite alérgica, febre, sinusite. Tomei Thora, Doranicum, Ostréa-edulis, gargarejei e usei souci no nariz. dormi a tarde toda e acordei boinha. Aí vim aqui e escrevi.

a favor da homeopatia

eu nem devia estar escrevendo hoje. porque eu tô muito zangada, e muito zangada a gente diz o que não quer dizer, xinga quem não devia xingar, fala besteira, ofende de graça. e eu na verdade não sou médica, não tenho conhecimento científico e nem sequer sou uma boa polemista, dessas que citam autores como apoio. só o que eu posso oferecer é a minha experiência e a das pessoas com quem eu convivo. mas o motivo da minha zanga é ver tanta gente boa saindo do seu conforto pra tentar estragar a vida dos outros.

a homeopatia foi uma coisa maravilhosa na minha vida. eu sou uma menina dos anos sessenta. minha mãe conta que quando me pariu não queria parto normal, mas o médico era “das antigas” e não concordou. ela também não queria amamentar, já que havia lido que o leite em pó era muito mais apropriado paraas crianças, manipulado artificialmente (artificialmente nos anos sessenta era uma boa palavra) para conter todas as vitaminas necessárias às crianças, mas ela tinha muito leite e minha avó não deixou ela não amamentar. já com minha irmã foi diferente, ela ainda teve parto normal (parece que era ótima parideira e a criança nasceu antes que o médico pudesse organizar a cesária) mas ela já não ouvia minha avó e deu todo o leite artificial que queria `filha.

eu tinha muitas infecções de garganta e aí aos nove anos fiz a tal cirurgia que era moda, tirei amídalas e adenóides. A partir daí virei uma vítima da rinite alérgica, acordava espirrando, vivia resfriada, com nariz entupido, sinusite. Tomei todas as vacinas, todos os alergênicos, fiz todos os tratamentos que apareceram. Quando o meu filho nasceu, parecia que havia herdado de mim a praga, resfriados, catarro, “canseira”, nebulizações sem fim. Foi aí que a homeopatia entrou. Meu filho ficou curado, eu fiquei curada, bem, eu mais ou menos, como eu não tenho amídalas nem adenóides, de anos em anos eu tenho uma crise, tenho que fazer o tratamento de novo (tomar os remedinhos por um mês).

Minha caçula aos trẽs anos teve febre reumática, já contei isso aqui. O que eu gosto de contar é o seguinte: eu fui ao alopata antes, eu morava no interior,onde não havia homeopatia, o médico passou cataflan enquanto saía o resultado do exame de sangue e benzetacil pra tomar no momento em que ficou confirmado o diagnóstico. Enquanto esperávamos o resultado do exame o efeito do cataflan foi diminuindo, era para tomar de seis em seis horas, mas a febre começou a voltar em cinco e depois em quatro horas,assim, quando eu saí do consultório da homeopata, haviam se passado quatro horas que eu havia dado o cataflan e a minha filha estava queimando de febre, choramingando no meu colo, não pisava no chão porque as pernas doíam, cheia de manchas vermelhas pelo corpo. Quando saímos da farmácia homeopática, eu nem esperei chegar em casa, fiz meu marido comprar uma água mineral e dei o remédio ali mesmo na rua, antes de entrar no carro. Vinte minutos depois, quando paramos o carro na frente da casa da minha sogra, minha filha, já sem febre, pulou do meu colo e saiu correndo com o irmão. não teve mais febre, nem manchas, nem dor nas pernas. Os exames não dão mais nada.

A empregada da minha vizinha há anos reclama da asma do filho, do preço dos remédios, dos dias perdidos de trabalho. Ano passado eu soube que ia ter homeopatia no posto de saúde do bairro e contei pra ela. Ela me olhou meio torto, mas eu disse “os remédios são mais baratos, eu compro de 14 reais cada e duram mais de um ano”. Isso a convenceu, ela foi. Mês passado ela me trouxe um pedaço de bolo de agradecimento. Seis meses sem nebulização, sem corrida pra emergência, a economia de remédio e táxi foi no presente de natal do menino, a patroa aumentou o salário dela pela assiduidade.

A enfermeira do posto, que me contou que iam ter homeopatia lá, não acredita na especialidade, acha crendice, água com açúcar, psicológico, mas sabe reconhecer os benefícios. Acha que é a médica, que é mais humana, que ouve as mães, que conversa sobre os filhos e que isso as conforta. Me falou que diminuiu a quantidade de crianças em crise, tem mais pra consulta que pra emergência, com febre, passando mal. mas que está começando a ter demanda de outros bairros, gente que não mora por aqui e dá endereço de algum amigo ou parente só pra se consultar com a médica. Que um dia desses a pediatra não tinha pacientes, saiu do consultório, viu a sala de espera cheia de crianças, perguntou o porquê daquilo e ouviu que era para a homeopata….

Então não me venham falar do SUS. Quem está fazendo esse protesto nunca precisou do SUS na vida, não sabe o que é correr pruma emergência de hospital público com o filho com febre, não sabe o que é dar um remédio que ataca o fígado e estraga os dentes da criança pra sempre. Médico de hospital público receita antibiótico pra tudo, pra qualquer febre que eles não saibam de onde vem. No que isso pode ser melhor que a a homeopatia?

Lembro como o médico que me atendeu uma vez falava com desprezo dos “chazinhos” como se fosse um tipo de mágica ruim. Ou como o meu ortopedista reagiu quando eu disse que não ia operar o joelho e sim fazer acupuntura.

Pode ser que a ciência precise de mais cem anos pra reconhecer a homeopatia e eu gostaria que as crianças pobres do Brasil  não precisassem esperar até lá.

Campanha de Apoio a Papai Noel

Slogan: “Nesse Natal, deixe seu filho acreditar em Papai Noel”

Podemos reinventar Papai Noel. Primeiro, parar de ameaçar as crianças de que se elas não forem boas, não ganharão presentes, principalmente pq elas vẽem colegas pestes ganhando smartfones e crianças pobres que só ganham porcarias usadas, então vão ficar com essa ideia que dinheiro é que é “bom”.

Segundo, desconstruir o Santa Klaus da coca cola. Eu gostei do Papai Noel das crônicas de Nárnia, mas cada um pode imaginar o seu. Quando as crianças me perguntam qual história de fadas é a verdadeira eu explico que esses contos eram falados durante muitos anos e só depois alguém resolveu escrever, então ela pode escolher o que gostar mais.

Pra ajudar a “descomercializar” o Natal, dê o presente que vc quiser, mas q o presente de Papai Noel não seja caríssimo, fora das suas possibilidades normais. Se os coleguinhas continuarem ganhando rolls royces, explique que, às vezes, o pai pode comprar e deixar pro papai noel entregar, pra ele ter mais tempo e dinheiro pros presentes das crianças mais pobres.

Deixe a criança escolher até quando acreditar, use a máxima: peça e receberás, acredite e acontecerá. Pode ser frustrante, mas é até bom uma frustraçãozinha, e vc não tem que ter todas as respostas.

Aquele negócio de filme americano da menina que só pediu o presente na imaginação e se tornou uma pessoa amarga e dura por ter seu desejo frustrado é frescura de holyude. Avise a seu filho eque vcs têm que levar a carta no correio senão não recebe e não compactue com truques que visam lhe desmoralizar, desculpas e subterfúgios são perdoáveis.

Ah, e não esqueça de comer os biscoitos. Aqui em casa Papai Noel nunca gostou de leite puro, só com nescau 😉

 

 

outra

mas sai de baixo que hoje é dia.

então esse é sobre trabalho.

porque o outro foi meio sobre ser feliz e esse também.

eu sempre brinquei que vim ao mundo a passeio. que trabalho era uma coisa pra pagar as contas no final do mês, contribuir para a sociedade e não pagar de desocupada.

Desde que o meu filho mais velho nasceu que essa questão de como e porque as crianças aprendem me mobiliza. Meio que por diletantismo,meio por eu-sou-mae-e-tenho-que-fazer-o-melhor-pro-meu-filho, meio por herança de pedagogismo familiar.

mas de uns tempos pra cá o trabalho ficou muito bom, muito divertido, quanto mais eu trabalho mais eu quero trabalhar, se vacilar eu pago em vez de receber.

ah, lembrei o porquê do post. é ainda por causa da história com Monteiro Lobato. Eu me envolvi num monte de discussões, monopolizei os comentários do blog e do reader dos outros, escrevi centenas de tuíts, dois ou três posts, deixei links do meu blog por aí (que eu não faço NUNCA) porque pra mim é importantíssimo explicar que Monteiro Lobato é importantíssimo.

Vocês não fazem a menor ideia.

Eu tentei, mas reli e não deu certo, explica rum pouco nos outros posts. Eu não sou boa de explicar, sou melhor fazendo. E faço direitinho, tá? E sinto nas crianças e elas depois me dizem. Aí eu acho que preciso desse mestrado mesmo, pra ver se consigo explicar pra outros professores. Mas eu acho que só na prática, porque criança é ali, no olho. Minha filha diz que as crianças me olham e reagem. Ou elas me acham A estranha e ela diz que dá pra ver a ruga na testa de o-que-essa-doida-ta-me-olhando ou elas riem pra mim e se jogam. mas estabelece o contato.

E eu fiquei orgulhosa, porque eu achava que era assim com todo mundo, nunca pensei que “fazer contato” fosse nada demais. mas comecei a achar que é. E Monteiro Lobato é isso. Ele faz contato. Crianças descobrem coisas, têm opiniões, desejam.Escolhem.Eu vi que as crianças não se identificam fisicamente. Elas escolhem Pedrinho ou Narizinho, não se importando se é menino ou menina. Importa mais fazer ou esperar, lutar ou aceitar. Perdoar ou brigar. E eu vejo esses meninos tomando decisões, escolhendo ser desse ou daquele jeito e penso nos pais, achando que eles estão aprendendo português ou matemática, hahaha.

Um menino veio outro dia de blusa rosa e havaiana da tirinha dourada. Isso é um marco na vida dele, porque o pai é o maior machão e o código de vestimenta super rígido.Um colega perguntou “e seu pai,não brigou?” e ele “eu falei pra ele que Jesus usava saia e não era bicha então eu posso usar o que eu quiser”. Aí um outro engraçadinho disse “e ser bicha se quiser” e pra minha maior surpresa ele disse “é, se eu quiser, eu não quero,mas se eu quiser eu posso.”

E diz ele que o pai ainda tentou reclamar, mas a avó não deixou “você não vai falar mal de Jesus!”. hahaha

Ah, a discussão começou por causa do Minotauro e a parte onde o pessoal do sítio veste a roupa dos gregos.

ai, já vi que o post descambou, desconversei, nem lembro mais o que eu queria dizer… Depois eu tento de novo.

amigans

Sempre lembrando que a falta de link é incompetência e preguiça, que eu vou tentar melhorar, mas se demorar muito eu esqueço o q tô pensando…

 

Eu li por aí uma entrevista dum cara falando contra a tal amizade virtual, que a internet facilitou a gente encontrar iguais e desaparelhou pra conviver com a diferença, a diversidade.

Isso me preocupa muito. Porque hoje eu sou uma pessoa feliz.Tão feliz que dói. Dói porque eu já fui muito infeliz e sempre fica aquele medo “e se voltar?” “E se eu tiver que tomar fluoxetina de novo?”

Eu nunca tive amigas até quase 40 anos. Tive colegas,conhecidas, quase-amigas. Mas sempre fiquei com aquela sensação que quem alimentava a amizade era eu, que se eu parasse de ligar, ninguém ia sentir minha falta.E era verdade, se eu não ligasse, ninguém me ligava. E eu sentia que era minha culpa, que eu não sabia ser amiga. E eu não sabia mesmo, mas não sei se a culpa era minha. Porque quando eu comecei a ter amigas na internet, eu comecei a aprender.

Então eu vi que não sabia ser amiga, mas que dava pra aprender. E eu tomei umas porradas, mesmo. Se você tentou ser minha amiga há 8 ou 9 anos e eu pisei na bola com você, desculpe, foi falta de prática,sabe?

Mas eu fui aprendendo e hoje sou uma pessoa melhor e tenho muitas amigas que conheci na internet. E eu acho que consigo mais facilmente lidar com a vida no dia a dia, mas continuo não tendo muitas amigas aqui fora que não foram da internet primeiro.

E aí vem esse cara e diz que eu tenho que lidar com a diferença…. Eu lido, acho que sim,mas eu me sinto melhor sendo amiga de quem eu tenho afinidade, ora.

E aí ontem aconteceram várias coisas: uma pessoa pra quem eu fiz um favor enorme me tratou como se não fosse um favor.Fiquei puta. E uma pessoa disse um bocado de clichês sobre amizade como se fossem o seu pensamento e quem a conhece sabe que não é. É só clichê.

E eu fiquei pensando que não, que amizade não é clichê, não é fórmula, diga isso, faça aquilo, dê conselho, não dê, não meta a colher.Às vezes a pessoa está te pedindo um conselho de verdade, à vezes só quer que você valide o que ela já decidiu, às vezes quer só brigar com alguém.

Eu mandei a ingrata à merda. Não literalmente, mas na prática. VSF porque eu não vou mais fazer o favor e ela precisa de mim. E disse literalmente pra outra: Bobagem, isso é clichê. Se você fosse sincera e se você ouvisse de verdade o outro vc teria aprendido, como eu aprendi. Eu dou conselho sim,mas às vezes eu não dou, eu não tô sempre certa, mas faz tempo que não ofendo ninguém pagando de sincera e nem ignoro ninguém. Continuo tendo dificuldade de cumprir prazos e promessas, mas vivo pedindo desculpas…

Eu sinto muito se ficou meio confuso, mas vai q uma das duas lê o blog algum dia e se ofendem, né? (duvido, mas vai saber)

Então eu só acho que foi difícil encontrar amigas com as quais eu tenho muitas coisas em comum, sim, mas também tenho muitas diferenças e convivo sim, na internet e na vida “real”. Talvez porque nós somos as mesmas pessoas na vida dentro e fora da rede, a gente só conseguiu se encontrar num lugar.

Ainda Monteiro Lobato

Só avisando que aqui não se trata do parecer do MEC que me parece bastante razoável. Só acho que em vez de uma nota explicativa introdutória no livro, devia-se fazer um Manual Para o Professor Lidar com o Racismo na Obra de Monteiro Lobato.

Porque eu acho Lobato essencial, mesmo. Acho que a construção dos personagens, a menina que vive com a avó no sítio, tendo a sabedoria literária de Dona Benta, a sabedoria popular de Tia Nastácia, as tradições da cultura oral com Tio Barnabé. A menina que não vai à escola, que não é sujeita ao mundo moderno, às regras. Eu quando era criança implicava com isso, com o machismo. Porque Pedrinho era o moderno, corajoso e Narizinho era aquela besta que não ia pra escola? Porque esse era o meu mundo, machismo. Era essa a minha preocupação.

Hoje lidando com crianças de variadas origens e classes sociais, vejo como Monteiro Lobato é necessário. Cada criança enxerga nele o problema que a aflige, seja o machismo, o racismo, a falta dos pais das personagens, a presença dos mitos brasileiros, a forma de enxergar os contos de fadas.

Quando eu digo aos pais que não precisam se preocupar se a irmã da Cinderela decepa o próprio dedão ou se a madrasta da Branca de Neve quer matá-la porque tudo é simbólico, ninguém entende. Balançam a cabeça e compram aquelas versões expurgadas sem sangue nem drama.Aí quando eu começo uma Oficina e digo “vou contar a história de Cinderela” é um muxôxo total “ãhn, Ôhn, pô, pró, conta outra, essa é muito besta…” Depois é um tal de pedir “aquela do dedão” de novo…

Eu começo com Reinações de Narizinho,mas não é a que a galera gosta.Todo mundo gosta do Sítio do Picapau Amarelo, que tem as histórias das Fadas, o Minotauro e o campeão: Os Doze Trabalhos de Hércules. E depois dos trabalhos de Hércules a gente entra nos Mitos Gregos.

No Sítio, já com todos os personagens apresentados,as crianças começam a ficar fascinadas com a possibilidades de realizarem todas as fantasias, um lugar onde se pode erguer castelos, onde uma avó compra uma fazenda para abrigar personagens de livros. É uma possibilidade infantil, tem nuances de real. Algumas crianças chegam a perguntar se o sítio existe de verdade.Mesmo alguns mais velhos seguram a respiração esperando a resposta.

A avó que sabe tudo e a avó preta que cozinha delícias são sonhos infantis. a gente quase consegue se imaginar  naqueles colos.Uma mãe me conta que a filha tem pedido muito para visitar a avó, que perguntou se a avó sabe cozinhar.

A avó de um dos meninos bebe. O menino sempre chegava triste, a avó vinha trazê-lo. Dia desses ele chorou durante a história. Os colegas consolaram, alguém perguntou porquê, outro respondeu “deixa ele, se ele quiser , ele conta”. Essas mesmas crianças outro dia estavam se apelidando e criando grupinhos.

O livro de história fala de Getúlio Vargas como “ditador populista”.Uma das meninas interrompe a história e pergunta se isso é uma coisa boa, porque a professora dela acha ruim. Pergunto o que ela acha e me responde que o livro lista muitas coisas boas que ele fez, então não pode ser tão ruim. “Não se pode acreditar em tudo que os livros dizem, né, pró?” Percebo então o motivo da interrupção estranha, há uma discussão entre Emília e o Visconde sobre a importância dos livros.

Há uma discussão se Emília é menina. As meninas acham Narizinho muito boba,querem uma representante mais ativa.”Mas Emília fala muita besteira!” Elas condenam a insolência da boneca mas secretamente dão risadinhas quando ela enfrenta a autoridade dos adultos.

Há muito choque quando eles percebem que o sítio dos livros não é o sítio da tv, muita coisa do Brasil antigo é estranho pra eles, algumas coisas eles nem percebem.

Quando eles vão fazer a releitura, escolhem trechos dos livros, é fácil perceber os problemas que os atingem, o que os preocupam. Só uma vez o racismo pesou e eu tive que procurar uma história africana pra contrapor. Achei um conto sobre Oxóssi, matas e caçadas. Um conto completamente indecente, embora não explícito e fiquei apavorada com a conotação sexual numa turma de 9-10 anos. Não perceberam nada. Estavam voltados para a descoberta do orgulho do negro caçador rei da floresta. Um perguntou “ele é mais forte que Tarzã, né, pró?” “Claro, seu idiota, ele é um Deus, Tarzã é só uma pessoa que nem é da Àfrica, só foi criado lá…”

Uma vez minha filha me disse “Mãe, Cinderela é loira?” “E Rapunzel?”. Ela descobriu que não havia nada nos contos de fada sobre a aparência exata das princesas,só que eram “lindas”. Bom, tem a Branca de Neve…