Arquivo para feminismo

Desejo

E aí teve muita discussão sobre se a mulher tem escolha, se ser dona de casa é uma escolha, se a dependência financeira não tira a escolha da mulher. (já sei, tem escolha demais)

Eu queria dizer que esse post é sobre desejo. Eu nunca cogitei ficar sem trabalhar e quando fiquei desempregada a angústia me deixou doente.

Porque o que eu estava pensando era mais no desejo, na liberdade de desejar diferente, de não desejar ter uma carreira, ser uma pessoa poderosa ou importante. De, em alguns momentos da nossa vida, desejar ser só mãe. Como isso é visto preconceituosamente pelos nossos pares, aquelas pessoas com quem você conversa, discute, sai.
Eu trabalhava “porque precisava”, porque o meu desejo não era o de estar ali. Mas veja, se eu dissesse “estou nesse emprego porque preciso, mas na verdade eu quero ser CEO da Microsoft” ninguém teria me olhado como se eu fosse um ET. Até se eu dissesse que queria mesmo era morar em Arraial D’ajuda e criar galinha, o povo teria dito “nossa, que coragem” e ponto. Mas desejo de ficar em casa com os filhos, ah, isso é para fracos.
 Eu não falo de ser dona de casa, nem de não trabalhar ou ser sustentada por marido (argh) embora reconheça que há casais que conseguem lidar bem com um deles não estar numa atividade economicamente rentável.
E eu, na verdade, consegui encontrar um meio. Eu queria ter encontrado isso quando o Rafa tinha um ano. Mas tem uma curva de aprendizado necessária aí também. Talvez.
Eu acho que é muito importante lutar por um modelo de trabalho menos estressante, com mais home office, com uma jornada menor, com licença-filhos para os envolvidos, eu ia dizer o casal, mas lembrei dos pluri afetivos.
Eu queria ajudar a discutir e legitimar a necessidade de estar mais com os filhos, de estar presente, pai, mãe, genitores, ou sei lá como vamos chamar daqui em diante.
Anúncios

Lobato e os Contos de Fadas

Porque eu sempre volto a esse assunto, de novo e de novo…

Eu tô devendo um monte de posts e muito disso deve-se à minha preguiça contumaz de postar links.Então,como eu tenho que começar por algum lugar vou começar pelo fim, o que é sempre uma ótima ideia (consegui lembrar q ideia não tem mais acento!) e não abro mão da minha fama de procrastinadora que fala difícil.

Vou fazer uma breve cronologia (sem links) dos fatos.

Uma professora de MG, ao analisar livros de Monteiro Lobato (a notícia que vi referia-se específicamente às caçadas de Pedrinho, mas eu não sei se a recomendação dela era geral, para a obra), recomenda que a obra só seja utilizada em sala de aula com orientação específica do professor quanto a colocações racistas do autor.

Imediatamente várias vozes se insurgiram contra a “censura” e rolou um abaixo assinado em termos meio bestas que gerou dois artigos do Sérgio Leo falando que o MEC estava certo e Lobato é racista sim e que não é censura, é só orientação por parte do professor.

Uma observação que eu li é que o MEC já faz ressalva quanto ao fato das Caçadas de Pedrinho serem anti-ecológicas.

Bom,pra começar, sou contra.

Adoro dizer isso: Sou Contra. Num país em que sou pró-governo depois de quase 40 anos sendo contra, já tava com saudade. PeTista precisa protestar!

Bom, mas sou contra o quê? Contra o racismo,contra a censura, contra a recomendação,contra o abaixo assinado, contra a ressalva…

Só sou a favor de Lobato e das crianças. Deixem os dois juntos e não se metam, que eles se entendem e se resolvem.Acho que Alex Castro tem um post sobre Lobato, mas é sobre um Lobato pra adultos, um conto ou romance que eu li uma vez num livro de português que foi da minha mãe, um “textos para o exame de admissão”, chamado Negrinha, uma coisa tão horrível e chocante que me traumatizou pra sempre, nunca consegui voltar a ler o texto.

O texto é bom, tanto quanto eu posso me lembrar, já que li aos dez anos, e tem que ser bom pra ter me deixado essa impressão marcante,mas eu chorava sempre antes de chegar ao final, daí meu trauma.

Bom,mas divaguei.

O que eu quero dizer é que precisamos é dar cursos para os pais e professores para que deixem de tentar traduzir o mundo e a literatura para as crianças. Deixem que elas descubram, que sua curiosidade seja atiçada, deixem que elas procurem perguntar e saber.

Eu faço oficinas literárias há anos e NUNCA tive uma turma que não se revoltasse com o tratamento dado a Tia Nastácia ou ao Tio Barnabé. Muitos chegam a comparar com parentes. Um menino contou,uma vez,que a Bá dele tinha o apelido de Neguinha,mas que ela contou só pra ele que não gostava e ele não sabia se contava pra mãe. Aí outra menina sugeriu que ele começasse a chamá-la pelo nome, pra ver se as outras pessoas se acostumavam. E completou “as pessoas ainda estão acostumadas com a escravidão” e todos balançaram a cabeça, gravemente concordando.

No inocência dela, não sabe quão profunda é aquela constatação. Em outro grupo, o único menino branco apelidou o menino mais negro de “África do Sul”. Imediatamente outro menino denunciou. O ofendido negou, disse que não ouviu, que não entendeu. Virou a discussão por três dias, se ofende, se deve dizer,se é brincadeira, se a pessoa ofendida deve aceitar a brincadeira ou reagir.

Ficar repetindo pras crianças que “é feio” e “não pode”,não adianta. As crianças precisam entender o racismo concretamente, em situações normais.Precisam entender porque Tia Nastácia não só não reage como continua lá, no Sítio, tratando todos como se fossem da família.

Para isso elas têm que se identificar com a história, comprar o propósito. Aqui no jardim temos árvores, passarinhos,calangos, lagartixas. Muitas dessas crianças criam passarinhos em gaiolas, vêem adultos matando lagartixas, nunca viram um calango. Por que não mata? Por que não prende? Que bicho feio!

É uma outra realidade, um outro modo de vida. Já pensou se na entrada eu  tivesse que fazer profissão de fé? aqui em casa não se mata bicho, não se prende, lagartixas são amigas e comem mosquitos e baratas…

À medida que as coisas vão surgindo, eu vou lidando. Como a história do sobrinho do milionário que deu toda a herança pros pobres “que otário” “eu comprava uma ferrari” aí você vai dar uma de moralista e dizer que dinheiro não traz felicidade? eles vão balançar a cabeça fingindo concordar mas por dentro pensar “que otária!”.

Então não é fácil, não dá pra ficar chamando a Rapunzel de boba porque não foge da torre sozinha, porque tudo é simbólico. E se um dia ela, uma menininha, precisar de ajuda pra resolver um problema e pensar “não, a mamãe acha bobas menininhas que esperam por ajuda, vou fazer tudo sozinha”.

E se o menino negro pensar que é bacana que pessoas diferentes como uma família mestiça com laços de parentesco confusos como o da sua própria família e preconceituosos, racistas, machistas como seu avô e seu tio possam se amar e serem felizes e que quando ele está ali sonhando com esse paraíso a pró vem de lá e diz que Lobato, o criador da história, é racista=mau?

Deixem que as crianças questionem o que elas precisam, não o que vocẽs adultos gostariam de ensinar. Quer ensinar? pratique. Não faça nem permita abusos e atitudes racistas, lute pelo que é certo, procure manter uma postura “assertiva” feminista na vida que não vai ser Rapunzel nem Emília que vai fazer a cabeça do seu filho do contrário.

E depois, vem cá, que é que adianta uma introdução no livro se o professor, ele próprio for racista e preconceituoso?

 

religião

eu sou católica. e crente.mas sou pró-escolha, a favor do casamento de animais,minerais, vegetais,ETS e quem mais quiser casar.ah, sim, e a favor do estado laico e da não interferência do estado na minha religião.completa separação igreja-estado. a césar o de césar a Deus o de Deus.
Achei massa aquela liga das católicas pelo direito de decidir, tô dentro.
Acho que eleição não é o momento de falar de religião, aliás, política e religião não deviam se misturar. Detesto tv e não assisto nem novela nem telejornal, só vejo enlatado americano e inglês que baixo na internet, cancelei a sky também.

Mas obviamente uma tv que mantém o PHA tem que ser muitíssimo melhor que aquela que vive demitindo os jornalistas por não seguirem a orientação da chefia. Então, apesar de ter meus problemas com a IURD concordo que o jornalismo na record da dando de lavada na outra, a inominável.

Eu entendo que a religião, ou a falta de uma, modifique internamente as pessoas que  somos e que isso acabe interferindo em como votamos. Meu filho, por exemplo, acha que aborto é um crime e que a pessoa que o pratica deve ser julgada como num assassinato. Eu sou a favor da descriminalização e acho, como a Minha Presidenta, que mulher nenhuma é a favor do aborto, mas como não sou candidata a nada e não moro em apartamento, não tendo oportunidade nem de ser síndica, sou a favor de que isso seja deixado à consciência de cada uma, de cada mulher. No dia que se encontrar um meio de transferir o embrião pra onde se quiser e isso for cirurgia paga pelo sus e sem fila, a gente conversa sobre crime.

Acho que a sociedade deve se articular para não permitir aos grandes grupos religiosos que legislem sobre a vida do cidadão em função da sua própria religião. Acho que o respeito à religião é o direito a todas as crenças,inclusive na de que não há nada a crer.

índia

Vocês lembram de Índia? Claro, muitos inclusive me ajudaram, fizeram rifa, doaram roupas, alimentos.

Bem, estamos em setembro, mês que tradicionalmente as coisas boas acontecem, Helê. Eu tenho uma teoria sobre isso: Setembro é mês de Cosme e Damião, é nove meses depois do Verão, é o primeiro mês depois de agosto e ainda não chegou dezembro com aquele calor de derrubar coqueiro.

Mas voltemos pra Cosme. Setembro é o mẽs que as boas ações não ficam impunes,porque quem recebe, paga. E esse mês eu não tenho estômago pra tanto caruru de promessa. Mas um será obrigatório, o de Índia,em Alagoinhas. A cooperativa está funcionando a todo vapor, os homens estão empregados, as crianças na escola, uns com casas novas, uns inscritos pra receber as suas. As notícias que recebo são ótimas, as caras das pessoas, todas felizes.

Recebo essa notícia de uma moça de 18 anos, que passou no vestibular da UFBA e está morando aqui em Salvador para estudar,junto com a prima, que passou noProUni e vai estudar na FACS.

Meninas pobres, de verdade,filhas de agricultores e agora, Lavadeiras e trabalhadores da construção civil, estudando enfermagem e psicologia.

Parabéns pra elas. Parabéns pra nós!

melhorou pra todo mundo?

pré-post:

aos que não gostam muito de meu súbito engajamento eleitoral, peço desculpas, é por pouco tempo. As histórias eu as venho contando há tempos, escrevi parte de uma no twitter, pediram a versão completa, e aí fui me animando.

Eu moro num bairro popular, convivo com gente muito pobre, que pela primeira vez na vida tem oportunidade, dignidade.Ouço as histórias.

Tenho uns vizinhos de classe média que sempre votaram em ACM. Votaram inclusive em (argh) Neto pra prefeito nas últimas eleições. A casa era de uma família só quando eu era criança, mas eles são cinco filhos, foram casando e “fazendo um puxadinho”. Dividiram a casa, fizeram 2 apartamentos atrás, um morava com os pais, outro pagava aluguel, fizeram um salão de beleza pra uma.

De dez anos pra cá (eu diria oito, mas realmente não tenho certeza ;)) Uma passou num concurso, foi morar em Recife, a mãe reclamou que ela vem de férias “e fica em hotel”. Outra construiu uma casa num condomínio chique em Piatã e já foi duas vezes pra Europa. Outra que também passou em concurso público comprou um apartamento. Os dois “rapazes” compraram apartamento, um já se mudou e o outro, que morava de aluguel, mudou-se pro apartamento do fundo pra esperar o seu ficar pronto. Todos são pessoas da faixa dos trinta anos, com escolaridade técnica ou universitária, com filhos com mais de dez anos.

Essas pessoas não votam em Lula ou Dilma. Acham que melhoraram somente por seu próprio esforço.Falam mal de Dilma guerrilheira, abortista, do PT que não cuida da segurança, da saúde que vai  de mal a pior, da educação “que no meu tempo as pessoas escreviam melhor”.

Uma me disse, “é, no governo federal melhorou, mas aqui continua a mesma porcaria” e confundiu ações do governo com coisas que cabem à prefeitura.Aqui na Bahia as pessoas viciaram na política de ACM de “o que tem pra mim nisso”. Vai demorar de mudar e durante muito tempo ainda, elas vão votar em quem oferecer mais. Na classe média não é um saco de cimento, mas é um emprego pro filho, a bolsa na faculdade, um cargo, uma vantagem.

Ouço as pessoas falarem que “pobre vota com o estômago, se vende por qualquer saco de cimento”. A mesma pessoa que faz campanha pra um dos Magalhães que “conseguiu o asfalto pra rua”.

Mas eu relevo,porque essas pessoas cresceram como eu, num mundo onde não se falava mal do governo, onde as histórias dos porões eram contadas em segredo, onde havia livros que não se podia ler ou ter.

No salão de beleza da minha vizinha, a manicure quer ser engenheira. Como não conseguiu passar no vestibular da universidade pública nem teve nota suficiente no enem pra faculdade particular de engenharia, está fazendo um curso técnico de eletrotécnica “pra melhorar na matemática e na física”. Mas não desistiu.

A empregada da outra vizinha formou-se em Turismo pelo ProUni, já arrumou emprego num Hotel. Nem vou contar pra vocês as reações das patroas da vizinhança. Até eu entrei na dança, porque ajudei com o TCC.

Minha filha está fazendo uma Oficina de Cinema num Ponto de Cultura. Por que eu nunca soube do trabalho que Gil fez no Ministério da Cultura?Ótimos professores, famosos,pontuais, exigentes. Currículo sério, produtivo. De graça.

Curso técnico profissionalizante, curso de artes, mas tem gente que me diz “de graça, não deve prestar”.E paga uma fortuna por um curso “profissionalizante de informática”.Aliás alguém me diz que profissão é essa, informática?

Como sempre,comecei escrevendo uma coisa, pulei pra outra, não sei bem o que eu queria dizer, só falar sobre vidas que eu vi mudar, mesmo de quem não se deu conta disso, ou de quem ainda se recusa a surfar na onda.

Ah, outra coisa que mudou, são as mulheres. Em tempo de desemprego, as mulheres ficam em casa. Nesses últimos anos, a maioria das mães que eu conheço está trabalhando. Essas mulheres chegam aqui e dizem: vou votar em Dilma,porque fogão, nunca mais!

E as crianças?

Quando eu era criança, minha mãe era professora primária. Trabalhava numa escola no fimdomundo, onde se levava duas horas de ônibus e mais meia hora a pé, no barro e com ladeirão. A escola era muito pobre, as crianças mais ainda. Iam pra escola de sandália havaiana, calças-pescando-siri camisa de tergal ou camiseta hering muitas vezes rasgadas. A merenda era mingau feito nuns caldeirões imensos.Quando eu ia com minha mãe levava minha merenda e comia na secretaria,pra não “afrontar a pobreza”.

Na minha casa se tinha tudo, escola particular, roupas e brinquedos “dos bons”, susie, banco imobiliário, autorama, prosinha, andinha, amiguinha.Mas uma coisa minhas amigas tinham e eu não: material escolar chique, fofo,cor de rosa, borrachinhas perfumadas, cadernos floridos e desenhados. Na época de comprar material escolar, minha mãe nos levava ao FENAME (fundação nacional do material escolar) lá comprávamos cadernos com hino nacional na capa, dicionários, lápis, borrachas, canetas.Tudo simples e muito barato. Mas não comprávamos só pra nós, comprávamos pra todos os alunos da minha mãe. Todo começo de ano ela dava a todos os alunos um caderno, um lápis, uma borracha. Sem eles, muitas crianças não teriam como estudar, os pais não tinham dinheiro pra nada, as crianças iam pra escola comer.

Os livros eram método alfa, a coleção da ana maria popovic, mãe da sílvia, minha mãe sempre comentava como eles eram bons, os professores é que eram despreparados e preferiam ensinar o be-a-bá. “Também, com esse salário” minha mãe ganhava menos que a empregada lá de casa. Meu pai jogava isso na cara dela pelo menos uma vez por semana, que ele pagava pra ela trabalhar. Ela ficava uma fera, mas dizia, “é pouco mas é meu, não peço dinheiro a ninguém”. Não era bem verdade, ela tinha um cartão Mesbla e um cartão Nacional sem limites e tinha obssessãopor roupa de cama.Sempre tinha lençol e toalhas novos no guarda roupa. Eu de vez em quando roubava um.Levava uma bronca “porque não pegou um já usado” mas a sensação da roupa de cama nova valia a pena.

Mas aquelas crianças doíam no meu coração e no da minha mãe, a pobreza escancarada, envergonhada, que mentia que “ia comprar amanhã” alguma coisa simples como um lápis.

A minha igreja ajuda os pobres. Já foi muito mais necessária.Hoje em dia a gente ajuda as vítimas de tragédias, de enchentes, de doenças. Mas no Natal a “moça da igreja” falou que haviam sobrado cestas básicas, da cota que a gente sempre distribui “o pessoal só quer doce e panetone” me disse ela.

Aqui na minha porta passam as crianças pra escola pública. Todas com as fardas novas, todas de tênis, com as mochilas com o escudo da prefeitura.Os livros são os mesmos da escola particular, muitas vezes melhores. O salário do professor, se não é bom, já fez muita gente que eu conheço deixar a escola particular, o comércio, até uma financeira.

Eu tenho um grupo de crianças que tem meninos de escola pública. Nessa idade, de oito, nove anos, todos “votam”. Vai votar em quem, João? eu vou votá ni Lula, meu pai e minha mãe também. Mas Lula num é candidato, seu bocó! Mas a gente vota na mulé de Lula, é a merma coisa. Aquela num é a mulé de Lula, é Dilma. Ela é sim a mulé de Lula, ele tem uma mulé em casa e outra no governo,a gente vota na mulé do governo. Meu pai já disse, se ele pode sustentar as duas, a gente não tem nada com isso.

Aí eu me meti, que os outros iam  fazer o pequeno chorar, e expliquei, que Lula e Dilma eram amigos, não eram namorados. Ele não acreditou em mim. A mãe me disse que o pai ficava inventando essas histórias e brincando com a ingenuidade dele, mas que era o resultado de viver num lugar onde as pessoas se separavam muito, traíam muito e que “só agora mulher estava se dando mais valor”. Que por isso ela ia votar em Dilma, porque o marido dela mudou de opinião sobre “mulher saber fazer as coisas” quando Lula falou na televisão sobre as mulheres, e não falava mais sobre “mulher pilotando fogão” “aquela precisa é de um tanque de roupa pra lavar”. E que eles se inscreveram pro “Minha Casa”.

Eu não sou boa teorizando nem tirando conclusões macroeconômicas.Mas posso falar das pessoas que passam aqui na minha janela.As pessoas estão passando mais bem vestidas, com as cabeças levantadas. A gente pergunta da vida, a maioria não responde mais “levando”, “mais ou menos”. As crianças passam limpas, vestidas direito, andando, correndo, com a cabeça levantada, nada daqueles meninos arrastando os pés de cabeça baixa.

A vida das crianças melhorou. Muito.

Nós Mulheres

Eu andei lendo uns posts bacanas sobre feminismo, aí essa semana eu tive uma conversa interessante com a faxineira nova.

D. S. O que é esse negóço que fizero ca filha de Serra?

Que negócio Dilene?

Esse tal dossiê.

Ah, dossiê é quando se junta informações sobre alguém, quanto ganha, se é dona de alguma coisa, quantas casas tem, quanto dinheiro no banco.

Aaaaah, pensei que era coisa séra, só vi falá “violou, violou” pensei quera estrupo, violar num é estrupo?

Ah,mas nesse caso é pq os documentos eram secretos e tiveram que roubar do governo.

Ah, mas aí num foi Lula, Lula é do governo, num ia precisá robar, ele ia lá e pegava,pensei que tinham mandado estrupar a moça,aí num tava direito. Mas eu sei que Lula num ia fazê isso.

Não,fique tranquila. A moça tá sã e salva. E tu, Dilene, vai votar em quem?

No galego do Lula, na mulé do Lula e no povo que tá  no retrato – e me mostra um dos folhetos da campanha do meu deputado federal.

Perguntei onde ela tinha recebido o papel e ela me confessou que era um dos meus,meio envergonhada.Claro que dei todos os outros e ainda aproveitei pra dar os de deputado estadual.

Fiquei curiosa a respeito da história dela:

Edilene tem três filhos, um do primeiro casamento, dois do atual marido. Quando engravidou do  segundo filho, primeiro desse relacionamento, o marido, desempregado, bebia e batia nela. Chegou a morar um tempo numa “casa de maria”, abrigo para mulheres espancadas.

Graças à ong conseguiu um lugar pra morar e começou a reconstruir a vida. A Bolsa Família salvou a vida dela, junto com a ong e a igreja (da qual ela não faz parte). Ela passou a ser a pessoa “que tinha o cartão”. O marido quis voltar e ela não aceitou, aí ele deu a casa pra ela e foi morar com uma tia. Um primo arrumou pra ele um curso de segurança que tinha “apoio psicológico” e ele melhorou e pôde voltar pra casa. De lá pra cá, nunca mais encostou a mão nela. Quando brigam e ela ameaça ir embora ele chora e diz que nunca mais quer passar por aquilo.

Ela é analfabeta, mal escreve o próprio nome “por isso não consegue melhorar” de vida, de emprego. Eles têm casa própria, a filha menor estuda numa escolinha particular do bairro, mas vai pra escola pública quando tiver idade “onde farda e livro é de graça”,não tem telefone fixo, “pq o celular é mais barato” mas tem sky e estão pensando em comprar um computador.

O primo dele que é segurança também,e arrumou emprego pra ele,já disse a ela, que com primeiro grau “arranja fácil” um emprego de agente de limpeza em firma terceirizada. Esse primo é outro exemplo, tem um filho especial, no começo, se matava pra pagar um plano de saúde pro menino ter acesso a médicos e outros tratamentos. aí percebeu que os lugares onde ele ia atendiam SUS também. cancelou o plano de saúde e se acha melhor tratado agora, os médicos e fisioterapeutas não deixam a criança esperar, ele consegue todas as próteses e cirurgias de graça e rápido (com o plano era uma burocracia danada) e com o dinheiro do plano ele comprou um  carro zero financiado (na época do IPI baixo). A mulher dele deixou o emprego e só cuida do filho.

A essa altura a mulher estava às laǵrimas, “abaixo de Deus, Lula,dona S. nunca mais a gente passou fome, nunca mais eu me matei no tanque de madrugada pra lavar roupa de ganho pra comprar ao menos um macarrão, nunca mais meus meninos comeram mingau de água, minha menina só conhece leite ninho!”

O menino mais velho está fazendo um curso profissionalizante “do governo” de … torneiro mecânico. Quer ser presidente do Brasil.