Na contramão ou Reflexões sobre o dia das mães

Desde que eu li o texto sobre a maternidade como trabalho não pago que estou com algumas coisas na cabeça. Aí juntou com a  Cecília comentando sobre a atitude do ex-marido dela e hoje o texto sobre as mães empreendedoras.

Eu sempre brinco que se alguém me perguntasse aos 20 anos se eu queria ser mãe, teria escutado um sonoro NÂO! indignado.
Quando eu engravidei a primeira vez não tinha a menor intenção de ficar grávida, estava tomando pílula e tal. E eu perdi os bebês. Contrariando a mítica popular, não fiquei nem um pouquinho deprimida. Até fingi um pouco, já que era o que se esperava de mim. Mas essa gravidez indesejada teve um outro efeito, despertou a mãe em mim. Comecei a desejar muito ter um filho e como aos 20 anos a gente não mede muita consequência, engravidei. A outra gravidez também teve o efeito de me despertar para o parto natural, em casa, para o empoderamento da mulher, seu  (meu) protagonismo.
Quando eu tive o Rafael trabalhava dois turnos com pesquisa de campo, não tinha horário, dependia dos entrevistados. Tinha 2 licenças-prêmio, férias vencidas, fiquei um ano em casa como filhote, sendo neurótica, amamentando em livre demanda, exclusivamente, depois introduzindo os alimentos exatamente como estava no roteiro da pediatra. Com um ano Rafael foi paraa creche e eu de volta ao trabalho. Naquele momento eu percebi que se tinha uma profissão que eu queria seguir era a de ter filhos e criá-los. Tá, não dá, tem que produzir pro sistema capitalista, vamo lá.
Levei seis anos pra ter outro filho e mais dois pra me demitir do emprego público (sendo um ano e meio de licença-prêmio, férias, licença maternidade, etc), amamentação em livre demanda, exclusiva, etc,etc.
Enfiada na análise, cheia de problemas de definição pessoal e profissional, doida pra ficar em casa com meus filhos, descobri a psicopedagogia, que já vinha me interessando ao lidar com a educação deles.
Desde que eles nasceram, tudo que me interessa diz respeito a eles ou a crianças como eles. Me interessavam mais os meninos quando só tinha Rafael, passei a prestar atenção nas meninas, quando tive a Melissa.
Não sei se ser mãe me define, mas é absoluta prioridade na minha vida.Meu casamento arrastou-se e terminou segundo a conveniência do que eu achava melhor pros meninos.
Aí aconteceu. Eles cresceram. E eu que passei a vida inteira meio envergonhada porque só pensava nos meus filhos, fiquei com medo da tal síndrome do ninho vazio. Mas ela não veio. Veio uma vontade muito grande de fazer e pensar outras coisas, de deixar as crianças seguirem seu caminho. Tenho feito muitos planos, mas ainda dependem muito deles, o que eles vão fazer, o que vão querer. tenho um plano A, um plano B, um plano C. Quando me perguntam, você vai se mudar pra São Paulo? Vai ficar morando na Bahia? Vai morar em casa, em apartamento. Eu digo, não sei, depende dos meninos. A única coisa que eu decidi é que eles vão decidir, e eu vou decidir a partir da decisão deles.
E aí vem o motivo do título. Sou feminista desde uns oito ou nove anos, quando me revoltei com o papel secundário que Narizinho ocupava no Sítio do Picapau Amarelo. Por que Narizinho não ia pra escola? Não ia nas aventuras com Emília e Pedrinho? Só ficava cuidando da avó?
E eu tinha muitos planos de sucesso e carreira que sumiram quando eu decidi ser mãe. Não me interessavam mais aquelas coisas absolutamente e eu tive muita dificuldade com isso. Não perdi minha inteligência, nem meu interesse por livros e coisas que aconteciam, não deixei de querer ver os amigos, de tomar umas, de jantar, de passear ou viajar, mas as pessoas, homens e mulheres e meu marido incluso, passaram a me tratar como se eu tivesse uma doença mental. Se eu dizia “trabalho porque preciso” parecia que eu estava dizendo “sou uma parasita e desejo viver às custas da sociedade (ou do marido)”. Tudo porque era mais barato pagar a babá ou a creche do que eu fazer o mesmo trabalho.
Quando eu finalmente descobri um trabalho que eu gostava de fazer, estava desempregada e tinha um marido não muito compreensivo com meus dilemas, então comecei a dar aula particular em casa pra pagar o curso. Quando terminei decidi montar o consultório na sala da minha casa onde eu dava aula,mesmo não sendo um endereço chique. Optei por um modo de trabalhar que rende menos, comparativamente ao possível, mas me deu mais oportunidade de continuar lambendo a cria.
Me recusei terminantemente ser mulher-maravilha, mulher-polvo, super-mãe. Perdi muitos amigos “antenados e descolados”  com isso.  Tive vontade de comprar coisas pros meus filhos e não pude, de fazer viagens que eram muito caras, vi decepção nos rostinhos deles e quis ter pego o outro caminho muitas vezes. Mas todas as vezes que botei na balança, acho que tomei as decisões certas, ou as possíveis. Não é nenhuma verdade universal, nenhuma panaceia. Foi só o meu caminho.
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2 Comentários»

  Melissa wrote @

Engraçado que eu e o Rafa estávamos falando da desvalorização do papel de mãe hoje em dia.
Pra mim é a forma mais horrenda de machismo.

  Nalu wrote @

Mani, apesar de nunca ter desejado ficar em casa ( e nem muitíssimo menos podido ficar em casa, já aqui a provedora sou eu) achei muito legal esse texto, adorei sua reflexão, e não entendo o espanto.


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