então, lembra que a gente andou conversando sobre luta de classes? que o patrão é sempre o opressor, por mais “bonzinho” que seja, então não tem como pensar nessa relação sem o viés de classes opositoras. tem também a questão do subemprego, daquele emprego não especializado, sem futuro e angustiante, que como a Sam disse, trabalha para subsistir. Sabe aquele quadro da empregada que mora na casa do patrão e gasta o salário todo em vestido e perfume? outro dia eu ouvi uma pessoa dizer que a empregada dela se vestia melhor que ela, pq o dinheiro dela era só pra luxar, pois tinha casa e comida “de graça”. Essa pessoa esquece que a empregada, com o salário que ganha, não ia conseguir pagar casa e comida, então o salário dela já está pagando a casa e a comida, de um jeito embutido, sendo que o custo psicológico é enorme em auto estima.
Eu queria ressaltar que não é culpa sua, enquanto empregadora, a situação de toda uma classe, mas que a compreensão do fenômeno nos liberta para tomar atitudes sem paternalismo e, principalmente para não esperar que a relação se dê de forma “profissional”, já que a classe não tem uma profissão no sentido estrito da palavra. Eu me lembro que uma vez tive uma discussão sobre um artigo de uma estrangeira sobre como o feminismo no Brasil se deu em cima da empregada doméstica. Acho que é reducionismo pensar assim, na verdade o capitalismo no Brasil se deu em cima dos sem-privilégios, da empregada doméstica, do pedreiro, do porteiro, da vendedora de loja, todos esses empregos são sem-futuro, são empregos de salário mínimo, descartáveis, que em economias desenvolvidas os adolescentes pegam no verão, nas férias escolares, ou nem existem, ou pagam muito melhor. Outro dia o Leandro Fortes ou o Alex Castro estavam falando sobre como a classe média no Brasil é privilegiada e tem um monte de serviçais pra fazer todo o serviço desagradável, que em qqr lugar do mundo é a classe média que faz.
Outro dia conversando sobre bolsa família alguém dizia como isso estava deixando as pessoas “preguiçosas” e que em vez de trabalharem ficavam recebendo Bolsa Família. Eu quase perguntei pra madame se ela largaria o bom emprego dela e ficaria em casa recebendo Bolsa família. Não? Porque? Porque ela ganha muito mais . E qual a justificativa pra isso? eu estudei mais ? eu sou mais bonita? A outra nasceu na família errada, só isso. a bolsa família, como a cota racial, social, o fies, o prouni são só maneiras de diminuir um tiquinho o abismo que existe entre nós e essas pessoas. Porque a minha faxineira devia estar recebendo 400 dólares por semana, como recebe a faxineira da americana que agora vem de férias pro Brasil e gasta dinheiro como turista. Mas como eu não posso pagar isso, sequer os 70,00 reais que a Sam paga em SP, eu pago 30 e ela recebe o bolsa família.
Mas essa pessoa que recebe esse dinheiro e faz um serviço que não tem futuro nem prestígio social, sofre com a auto estima baixa e vive para o presente (como fazer planos se ela não tem futuro?) então ela se dá ao luxo de ser sensível, de largar o emprego só porque quer, de largar o emprego por futilidade. Afinal, se ela larga um, tem outro ali na esquina e são todos a mesma merda, a mesma exploração, a mesma desolação.
Então não podemos nos comparar com a doméstica, o porteiro, a vendedora do supermercado. Quando a gente contrata uma empregada tem que ficar ciente que está compactuando com uma situação de exploração, está dando uma esmola e corre o risco de receber de volta jogado na cara (sabe aquela situação de dar uma moeda ao mendigo e ele jogar no chão, chamar de pão duro e xingar de um bocado de nomes?). Mas a gente sabe que uma esmola no momento certo pode matar a fome, salvar uma vida, fazer a diferença, então a gente continua empregando a faxineira, o porteiro, a vendedora, pagando salário mínimo e se admirando quando elas rejeitam a anotação na carteira como doméstica.
Não tem jeito, é se preparar pra ficar na mão, ser o menos dependente possível, não pensar em justiça, lealdade, gratidão ou qualquer um desses sentimentos pequeno-burgueses de novela da globo. Pensar sempre que a sua moeda pode ser jogada de volta na sua cara. Pense como os espíritas, é caridade que eu faço por mim, não por ela (a caridade não é o emprego, é o tratamento justo, o salário certo, o respeito ao ser humano e à trabalhadora) Faça sua caridade e não espere gratidão nem lealdade, lembre da luta de classes.
bj
mani (que orientou o TCC da empregada da vizinha na faculdade de turismo, algumas escapam…)