Eu sou Neguinha?

Eu nunca me senti à vontade para ser contra as cotas. Mas também nunca consegui ser a favor. Essa semana, eu finalmente entendi porquẽ. Minha mãe é filha adotiva. Filha de uma mulher pobre e de pai desconhecido. Minha avó biológica era sarará miolo e do olho verde. Minha mãe é loura e do olho verde, com o cabelo mais fino que penugem de bebê, mas tem como se diz o pé na cozinha, literalmente, qualquer solzinho deixa o pé dela completamente preto.Meu pai era branco, mas a mãe dele tinha, nas palavras dela própria, cabelo ruim. Minha mãe usa filtro solar no pé pra não ficar com a marca da sandália, mas fazia um baita sucesso no tempo que bronzeado era moda. Já pensou? Loura do olho verde e morenaça?

Aí eu sempre fiquei meio com vergonha de dizer que era mulata, parda, mestiça,negra. Porque a gente foi criado em família de brancos e a minha avó adotiva era até meio racista não gostava que a gente namorasse meninos com cabelo cocô de rola (parece que pra ela cabelo de mulato parece com o cocô do passarinho). Mas principalmente porque eu sentia estar me apropriando de uma cultura que não era a minha, de uma história que não era a minha, só porque, por acaso, minha mãe havia nascido de um ventre mestiço. Mas o que conta não é o meio? Onde o meu DNA me dava direito de ser diferente dos “meus”?

Venho acompanhando a série sobre racismo do Alex, a discussão no Nassif sobre mestiçagem e um dia desses li um artigo do Leandro Fortes sobre cotas, em que ele dizia que a principal função das cotas raciais era fazer as pessoas abrirem a boca e dizer : sou negro.

E aí fiquei pensando…

continua…

Não ha comentários »

Seu comentário

HTML-Tags:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>