a culpa e a psicanálise

Sobre uma determinada teoria dentro da psicanálise, uma amiga disse: Mas isso é pra matar uma mãe de culpa. A outra completou: como muita coisa na psicanálise.
Não vou falar sobre a tal teoria em si, porque não sei o suficiente sobre ela, nem para criticar minhas amigas. Apenas sobre como a psicanálise, para mim, tem, ao contrário, um efeito libertador.
A gente passa a vida toda culpando os pais. Sou assim porque minha mãe me negou aquele doce quando eu tinha cinco anos. Porque não estudei na escola muderna e sim no colégio de freiras castrador.Porque meu pai gostava mais do meu irmão que de mim e não sabia lidar com o seu lado feminino.
E aí se promete que vai ser uma mãe perfeita e dar aos filhos tudo que não teve, seja no sentido material ou espiritual.Mas, oh, glória! Tudo o que conseguimos é imitar nossos pais e morrer de culpa depois.
Uma outra amiga me disse que se sente copiando a mãe e se odiando, outra me disse que quase morre ao ouvir de um amigo “cuidado para você não fazer com seu filho o que sua mãe fez com você”.
Uma mãe de um paciente, psicóloga, me disse:Eu sei que o ideal era tratar da mãe.Não sei como você consegue, eu ia querer tratar a família toda.
A psicanálise não é sobre isso. É sobre como você vê o mundo, como você sente as pessoas. Sua mãe é castradora se você a vê assim e não importa se é assim de verdade. aliás, quem determina o que é “verdade”?
Você pode ter uma mãe alcóolatra, um pai abusador,mas vocẽ pode ter pais amorosos e afetivos, e continuará a ter direito de falar mal deles na terapia, de considerá-los monstros, de desejar ter tido outros pais.Até descobrir que efeito isso tem na sua vida, ou até isso não importar mais .
A psicanálise é sobre descobrir, de repente, ou um pouquinho a cada dia,que já que você não pode mudar o mundo, ou obrigar todo mundo a fazer terapia, você pode mudar a sua visão do mundo, ou como o mundo afeta você.
Se a sua mãe costuma dizer coisas agradáveis sobre como você está gorda, ou como o seu cabelo não tem jeito, ou como ela é uma mãe tão melhor do que você, você pode descobrir o quão libertador é entender porque ela diz isso e, melhor ainda, que você pode simplesmente não se afetar com isso.
As crianças têm um período na terapia que começam a experimentar com os pais a manipulação, a rebeldia, a teimosia ou simplesmente a violência. ELas se dão conta do poder que têm com pais disfuncionais e começam a usá-lo. É a parte da “piora”. É quando, habitualmente, os pais me procuram e dizem que me contrataram pra dar jeito no pestinha e eu acabei “piorando” a situação. Hoje em dia eu costumo perceber a situação e chamar os pais antes que aconteça, alertando para que parar a terapia nesse momento é cristalizar essa atitude de manipulação por parte da criança. Porque logo depois a criança cansa desse joguinho e percebe que para crescer e ser feliz tem que ser “direita” , honesta com os pais e o mundo. É um momento muito emocionante.
Meu filho, aos dois anos, tinha um joguinho que jogava com o pai.Ele viajava a trabalho e ficava uma semana, duas, longe. Quando voltava, roxo de saudade, o filho aparentemente não dava a mínima. Dava um oi chocho e voltava para o brinquedo, como se tivesse visto o pai no dia anterior.E não tinha santo que fizesse ele dar um beijinho sequer… só o cachorro. O pai fingia que era um cachorro triste e chorava, uivava,gania (muito ridículo mesmo, só pai pra se prestar a um papel desses, hahaha) até que ele se compadecia e abraçava, beijava, acariciava a cabeça do “cachorro” e dizia, pronto, pronto, não precisa chorar. Era esse olhar, essa atitude condescendente, que eu vejo nos olhos dos meus pacientes que ultrapassam a fase da “piora”, que passam pela fase manipulativa e enxergam os pais como crianças birrentas, que continuam fazendo joguinhos. Essa criança eu sei que vai sobreviver à desqualificação, à chantagem, aos maus tratos, até à indiferença, o pior dos crimes contra a infância.

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