Essa semana eu revi uma pessoa muito importante para mim.Um personagem de Monteiro Lobato, de José Lins do Rêgo. Minha Babá.É Babá com letra maiúscula, porque pra ela eu continuo com cinco anos. Pedi a minha mãe alguma foto em que ela aparecesse, minha mãe disse que não tem, que ela não gostava de fotografia, que uma vez tirou uma no lambe-lambe pra mandar pra casa, pros parentes.Índia (é nome, não é apelido não) foi empregada de minha avó. Veio da fazenda pelas mãos dela, pra tomar conta das crianças (nós), dos netos. Não gostava de coca-cola, dizia que tinha gosto de “cibola” com sabão. Quando quis namorar, mandou o rapaz pedir permissão a minha avó, quando se “perdeu”, foi minha avó que foi lá, chamar o rapaz às falas e avisar que a moça era do sertão e que tinha um primo fugido da polícia, por ter passado um cabra safado desses no facão, e sabe como é, fugido por um…
Ganhou enxoval de casamento, enxoval do bebê, minha avó foi madrinha. Anos depois, voltou a trabalhar para minha mãe. Quando eu tive o primeiro filho, deixou o dela para cuidar do meu.Só descobri porque um dia, cheguei atrasada e encontrei meu filho mamando nos peitos dela.Ela perguntou se podia dar de vez em quando, doía demais. Cadê seu nenem? mandei pro interior, pra ficar com mainha, aqui não tinha quem olhasse. Trouxe de volta, irmãos de leite. O filho dela ficava na creche enquanto ela cuidava do meu filho. quando estavam juntos, o patrãozinho tinha sempre razão.Índia, não pode, reclame com ele, vai ficar mimado, não deixe te bater. Tadinho, é pequenininho, não entende. Dois pesos, duas medidas.
Chorou quando meu filho foi para a creche.Que judiação! Aprendeu que açucar fazia mal e contava pras outras empregadas, um dia uma vizinha veio me perguntar sobre natação pra bebês, era Índia fazendo propaganda das minhas “mudernages”.Sabia muito chá, muito remédio de folha, era católica e vivia atormentada com o caso com um homem casado, mas a carne era fraca…
Voltou pro interior, pra fugir da tentação, ela me disse. Meu pai comprou uma casa pra ela como indenização.Soube agora que teve uma filha especial. Achou que era castigo.Encontrou um padre que explicou que se fosse castigo, Deus ia dar a ela, não à inocente. Perdeu tudo nas últimas chuvas,menos a família, diz ela, outros perderam mais, filhos, mãe, vive de caridade há trẽs meses, mas há de ter vida e saúde pra retribuir a bondade, que encontrou em todo lado. Só com a roupa do corpo e ainda achou solidariedade em si pra dividir com duas famílias vizinhas, que trouxe consigo pra casa da mãe. A casa que meu pai comprou pra ela. Eu sou forte, mãe tá velhinha.
Família negra, linda, sorridente. As crianças não choram, não pedem nada, só aceitam da mão da mãe e da avó. Os homens olham pro chão, mal dão bom dia.Só o irmão de leite do meu filho fala comigo.Não vou contar o que fiz, foi tão pouco, queria ter mais pra dar.Mas eles não aceitam também, tem orgulho, querem trabalho.Um veio, arrumou um temporário, trouxe o outro, metade está lá, fazendo a preparação do terreno pra subir o barraco. Vão ficar lá, junto da mãe.
E eu fiquei lembrando do dia que , com uma semana de parida, discutia com meu marido quando ela chegou de mão na cintura e dedo em riste e passou uma descompostura nele “vai secar o leite da menina, vá esfriar a cabeça e só volte aqui de cara boa”.Índia.
ai Mani, me deu vontade de conhecer essa criatura…eu bem sei (graças a Deus) como são essas pessoas boas do sertão…
um beijo pra ela, outro maior pra vc.